À procura de Dory – Encontrando as Diferenças

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Este verão a Disney e a Pixar apresentaram-nos o filme de animação À Procura de Dory, uma sequela do filme de 2003 À Procura de Nemo. Com as primeiras críticas ao filme, a minha curiosidade de psicóloga e de técnica do Centro Diferenças foi espicaçada pela visibilidade de questões sociais e psicológicas associadas a jovens com perturbações desenvolvimentais. Fui ver apenas como mãe, mas saí da sala cheia de ideias para a psicóloga e sexóloga que intervém com jovens e famílias que lidam com diferentes perturbações neurodesenvolvimentais.

A visibilidade das deficiências começa logo no primeiro filme, em que uma deficiência física de Nemo o leva a desafiar a proteção parental de Marlin, o seu pai, sendo levado por um mergulhador para um aquário. A aventura para o resgatar leva o pai a viajar, conhecer outros habitantes do oceano, como Dory, a ultrapassar os seus medos e a reconhecer as capacidades de autonomia que o filho Nemo tem – apesar da sua barbatana diferente, mais pequena e menos forte.

Nesta sequela, a personagem Dory é a grande heroína e a história parte da sua perturbação: um problema de perda de memória de curto-prazo que a faz esquecer a cada 10 segundos o que acabou de acontecer e, como tal, apresentar problemas de aprendizagem sérios. Por causa desta condição, Dory perde-se de casa e da sua família, mas tem sensações e intuições que lhe permitem aventurar-se na procura. Reconhecemos os esforços das famílias e outros cuidadores de crianças com perturbações desenvolvimentais nas cantilenas que os pais fazem para ajudar Dory a aprender os perigos do seu meio e a proteger-se, nos medos de a mandar para a escola, nas exclusões de determinados encontros com pares.

Na aventura de Dory não é só a heroína que tem uma perturbação. Outras personagens cruzam-se com Dory, Nemo e Marlin e fazem-nos identificar a diversidade das comunidades, das escolas, das nossas vidas. Há o polvo Hank com dificuldades de se relacionar com os outros, com desejos de solidão e isolamento, entre o anti-social e uma perturbação do espetro do autismo. Há a baleia Destiny que sofre de miopia e tem de se orientar sem a visão; o tubarão Bailey que tem uma lesão cerebral e se orienta pelo som. Há o pássaro Becky que na sua perturbação da linguagem compreende o que precisam que faça e colabora na missão de ajudar Dory e os seus amigos.

Nemo e o Pai têm uma conversa essencial no filme por causa de Becky. Marlin não consegue confiar na ajuda desta ave estranha e Nemo revolta-se pela sua falta de crença nas suas competências para os ajudar, fala-lhe como a deve deixar tentar, mesmo que de modo surpreendente e imprevisível. Revemo-nos nos esforços que famílias, crianças e jovens fazem para desenvolver competências que as pessoas com perturbações têm, precisam, desejam ter; conhecimentos e aptidões mais ou menos escondidos, mais ou menos reconhecíveis pelos padrões da maioria.  A partir de um voo para resolver um problema numa aventura marítima, reconhecemos as rotinas e os esforços de muitas famílias no desenvolvimento e na aprendizagem da linguagem, da escrita, de tantas operações que a escola nos exige. Há ainda Rudder e Fluke, dois leões marinhos que sem vergonha gozam e excluem de uma rocha o mais estranho Gerald, que não fala e compreende pouco como o estão a tratar, mas vai tentando incluir-se no grupo. As descrições de muitos jovens nos intervalos e pausas da escola, não por acaso me refiro aos jovens, pois a inclusão das perturbações desenvolvimentais na infância e até à puberdade parece bem melhor conseguida e eficaz que nas idades mais adolescentes, parece semelhante a este pequeno momento de o fazer cair depois de o convidar a entrar, para ficar a rir, do leão marinho menos esperto e socialmente desperto.

Não chega ver o filme e ficar sensibilizado/a com a simplicidade com que aborda temas tão complexos e de difícil gestão nas famílias com filhos/as com perturbações desenvolvimentais. As cenas, a caracterização das personagens e as interações entre si podem e devem ser analisadas nas suas significações, pensar a complexidade por detrás da simplicidade em família ou na escola. Ver e acompanhar, reflectir em conjunto e procurar alternativas ao gozo, à exclusão, ao menosprezo podem ser momentos interessantes de aprendizagens não formais, não curriculares, mas ainda assim essenciais da cidadania, do altruísmo, da integração de todos na vida em sociedade.

A inclusão e integração de crianças e jovens nas comunidades, escolas ou famílias passam por não ter medo de abordar as questões sociais, relacionais e pessoais que levantam. Até que ponto conseguimos acreditar na criatividade das diferenças na resolução de problemas e tarefas, no valor das minorias com as suas (in)capacidades? Até que ponto nos orgulhamos da diversidade das perturbações e no que trazem de novo às nossas vivências?

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